O Casamento de Maria Braun, de Rainer Werner Fassbinder

Nas cinzas da guerra: Maria Braun e a nova Alemanha

Conhecido por grandes clássicos do início do século XX, como O Gabinete do Dr. Caligari (1920), Nosferatu (1922) e Metrópolis (1927), o cinema alemão anterior à Segunda Guerra Mundial foi o maior fenômeno da sétima arte fora dos estúdios de Hollywood. Com o fim da guerra, por meio de nomes como Wim Wenders, Werner Herzog e Rainer Werner Fassbinder, o país veria renascer das cinzas do nazismo o cinema nacional, impulsionado pelo que se convencionou chamar de Novo Cinema Alemão. E talvez não exista filme tão simbólico da nova Alemanha quanto O Casamento de Maria Braun, de Fassbinder.

Maria casa-se com Hermann Braun durante a guerra e, assim que o ritual é finalizado, seu marido de apenas um dia é mandado para as trincheiras na Rússia. A guerra termina, e Maria não sabe se Hermann ainda vive, mas a extrema pobreza a obriga a seguir em frente. Ela conhece um soldado americano no bar em que trabalha, e ambos iniciam um relacionamento baseado em interesse.

Hermann Braun vive e, ao voltar para sua terra natal, descobre a mulher em um relacionamento com o soldado. Maria automaticamente descarta e mata o americano para ficar com Hermann, mas não por muito tempo, pois Hermann assume a culpa pelo assassinato de Bill e é preso.

Sempre muito fria, Maria Braun constrói sua ascensão social com a influência dos homens com quem se relaciona. Karl Oswald, industriário de ascendência francesa, vive um relacionamento triste com Maria, no qual ela deixa claro que está à espera de seu amado Hermann, mas, enquanto espera, usa Oswald. A frieza de Maria é contrastada por sua honestidade: em momento nenhum ela engana os homens com quem se relaciona; todos sabem que ela é casada e que não está afetivamente disponível.

Trilogia BRD (Bundesrepublik Deutschland)

Para aqueles com olhar mais atento, não demora muito para compreender que Maria não é apenas uma pessoa, mas a representação de algo maior: a nova Alemanha. Fassbinder faz uma crítica ácida ao milagre econômico alemão dos anos 1950 e 60. Bill e Oswald representam as forças que o país usou para se levantar, no caso, as forças americanas e europeias. Mas Maria se mantém fiel a Hermann, sendo ele a representação do autêntico espírito alemão.

Seu primeiro grande sucesso no cenário internacional, O Casamento de Maria Braun rendeu a Fassbinder vários prêmios, incluindo um Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, em 1980. O longa seria o primeiro do que se convencionou chamar de Trilogia BRD, ou Bundesrepublik Deutschland, nome original do país. Em 1981, ele lançaria Lola e, em 1982, O Desespero de Veronika Voss. A trilogia retrata a Alemanha do pós-guerra pelo olhar de três protagonistas femininas.

Maria Braun é fria e calculista, mas sua inteligência e ousadia a levaram de simples secretária na empresa de Oswald para se tornar uma conselheira de peso. Apesar da personagem construída como crítica, há muito de “Maria Braun” em Fassbinder. O diretor, em pouco tempo de vida, criou mais de quarenta filmes e era considerado alguém difícil de lidar. Fassbinder machucava sobretudo aqueles que o amavam e, assim como Maria (mesmo que a contragosto), ele ansiou pelo retorno do amante: a forma alemã de ver e fazer o mundo.