Aisin Gioro Puyi, último imperados chinês

Puyi: o homem que nasceu imperador e morreu como jardineiro

Uma das figuras mais polêmicas do cinema italiano, Bernardo Bertolucci criou para si uma reputação ambígua. Por um lado, seu senso artístico o elevava ao patamar de grandes cineastas da geração anterior, como Michelangelo Antonioni (1912–2007), Federico Fellini (1920–1993) e Pier Paolo Pasolini (1922–1975). Por outro, o tema central da sensualidade em seus filmes não era visto com bons olhos pela crítica.

O Último Tango em Paris, de 1972, com sua (infelizmente) famosa cena de abuso sexual, marcou negativamente a imagem do diretor por quinze anos. Porém tudo viria a mudar no fim de 1987, com a chegada de O Último Imperador. Esse longa biográfico representou o renascimento do cinema de Bertolucci, e seu impacto foi tal que na premiação do Oscar, a obra recebeu nove estatuetas, entre elas: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte.

Cidade Proibida
Cidade Proibida

Apesar de ser o que poderíamos considerar um épico, O Último Imperador nos apresenta a figura de Aisin Gioro Puyi, o imperador que nada governa. Enquanto Lawrence da Arábia (1962), Coração Valente (1995) e Gladiador (2000) nos apresentam protagonistas heroicos, Puyi é o completo oposto: coroado imperador aos dois anos de idade e confinado dentro da Cidade Proibida, a história chinesa o relegou ao papel de líder simbólico.

A maior batalha de Puyi não é a de liderar o povo chinês, mas sim a de tentar encontrar propósito num país que passou por guerra civil e que, em breve, abraçaria o comunismo. A infância na Cidade Proibida o tornou um ser dependente, incapaz de lidar com questões cotidianas, e que foi convencido desde cedo de que seu papel na sociedade era o de liderança, por mais que não tenha aptidão para isso.

As quatro prisões de Puyi

Puyi na Cidade Proibida
Puyi na Cidade Proibida

É fácil notar que Puyi passou metade da vida tentando se libertar das prisões em que era colocado. A primeira prisão, a cidade imperial, oferecia a ele a ilusão de liberdade, porém ele não podia colocar os pés para fora da cidade, e os eunucos da corte acompanhavam todos os seus passos.

Com a guerra civil e, por consequência, a instauração do governo nacionalista, o imperador, agora adolescente, tornou-se uma figura inútil; sua existência servia apenas para manter a aparência das tradições chinesas. Isso não duraria muito tempo, e ao chegar à vida adulta, Puyi e toda a corte seriam expulsos da Cidade Proibida.

Na tentativa de se apegar a alguma forma de poder e manter seu status de nobreza, Puyi declara apoio à invasão japonesa da Manchúria. Assim nasce a terceira prisão do nosso protagonista: numa tentativa por parte dos japoneses de ter legitimidade na região, eles declaram Puyi imperador, mas mal sabe ele que será usado como marionete, não tendo poder real algum.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial surge a quarta prisão, sendo esta literal. A China, agora comunista, acusa o antigo imperador de traição e o envia para a prisão, onde ele deve passar por um processo de “reeducação”. É na prisão que, finalmente, na meia-idade, Puyi começa a se transformar em um homem.

Foi na prisão que ele aprendeu a amarrar os sapatos. O homem que certa vez foi chamado de “Filho do Sol”, terminou sua vida como um simples jardineiro. Muitos poderiam pensar nisso como algo trágico, mas fica evidente que a prisão e o contato com o trabalho pesado foram libertadores para Puyi. Por mais contraditório que pareça, foi no cárcere que o “imperador menino” encontrou o caminho para a liberdade, e ao sair da prisão, pela primeira vez, ele pôde desfrutar da vida.

Marcha do partido comunista
Marcha do partido comunista