A Noite Devorou O Mundo, de Dominique Rocher

O filme de zumbi que quase ninguém assistiu (mas deveria)

Esse é, sem exagero, um dos filmes de zumbi mais interessantes já feitos — e tem uma chance enorme de você nunca ter ouvido falar dele. A Noite Devorou O Mundo, obra francesa de 2018, faz para o subgênero de filmes de zumbi o que a maioria dos estúdios nunca nem tentaram.

Sam, o protagonista, decide ir para a casa da ex para pegar seus pertences, e ao chegar se depara com uma festa cheia e com sua ex já com novo namorado. O desconforto de Sam é visível, ele não consegue ficar a vontade, e depois de uma discussão, vai até o quarto no final do apartamento para pegar suas coisas. Exausto e machucado, ele decide se sentar na poltrona e cai no sono.  

A noite passa, e Sam acorda para um mundo caótico. O que antes era um apartamento em festa, agora parece um local de guerra, com sangue espalhado por toda parte. Algumas pessoas estão nas escadas, mas logo ele percebe que não são pessoas, não no sentido exato do termo.

Solidão e a insanidade

Anders Danielsen Lie como Sam
Anders Danielsen Lie como Sam

Sam vai até a janela e descobre que o mundo morreu, e que a manhã daquele dia engolia os últimos sobreviventes dos prédios vizinhos. E aqui começa o que podem ser considerados os temas centrais do filme: A solidão e a insanidade.

Não demora muito para o protagonista entender que aquele condomínio agora é seu mundo, ele faz varreduras pelos apartamentos na busca por suprimentos e quem sabe, sobreviventes. Aos poucos o tempo perde sentido, dias viram meses, e seu maior entretenimento são as músicas que ele cria com os instrumentos improvisados.  Aliás, não podemos esquecer do seu melhor amigo, Alfred, o zumbi que ficou preso no elevador, e com quem ele conversa cada vez mais.

Quanto mais Sam cria raízes no apartamento, mais sua sanidade se deteriora. Nesse sentido A Noite Devorou O Mundo é muito parecido com filmes como Extermínio, de 2002, e Eu sou a Lenda, de 2007. A espiral descendente é tamanha que na segunda metade do filme, a linha que separa o real do imaginário se funde.

A Noite Devorou O Mundo, de Dominique Rocher
A Noite Devorou O Mundo, de Dominique Rocher

A subjetividade de um filme de terror

Apesar da temática de terror, A Noite Devorou O Mundo é o que muitos chamam de filme art house, ou simplesmente filme de arte, e pode ser assistido tanto de forma literal quanto subjetiva.

Não é coincidência que o mundo tenha acabado justamente quando Sam vai até o apartamento da ex, ex essa que parece feliz e que seguiu com a própria vida. Naquela noite o mundo interno dele acabou, e o que sobrou foi o confinamento. Introvertido, Sam adoece na própria solidão.

Quando finalmente encontra outra pessoa, no caso uma mulher (o que também não é coincidência), ele é confrontado pela primeira vez em muito tempo com a realidade de que existem pessoas lá fora, que ele talvez ainda seja capaz de se conectar com o próximo, e que cedo ou tarde a vida o obrigaria a sair.

Golshifteh Farahani como Sarah
Golshifteh Farahani como Sarah

O tempo passa, a comida fica cada vez mais escassa. Em um raro ato de coragem, motivado pela invasão dos zumbis, ele joga uma corda para o prédio vizinho. Com muito esforço ele consegue se salvar, e logo ouve o que parecem ser sinos. Aparentemente, depois do trauma, é possível encontrar vida fora do confinamento.

E é nesse momento que A Noite Devorou O Mundo mostra sua verdadeira cara: não é um filme sobre sobreviver a zumbis, é um filme sobre sobreviver a si mesmo. A ameaça nunca foi realmente o que está do lado de fora da porta — era o que acontece quando um homem fica sozinho tempo demais com os próprios pensamentos. Alfred, o zumbi do elevador, talvez seja a imagem mais triste do filme inteiro: a prova de que, na ausência de qualquer contato humano, a mente se agarra até numa companhia que não existe.

É por isso que esse filme merecia muito mais atenção do que teve. Ele pega um gênero lotado de clichês — zumbi, apocalipse, sobrevivência — e usa tudo isso como pano de fundo para contar uma história muito mais íntima e muito mais perturbadora: a de alguém que perde a si mesmo antes de perder o mundo. É terror de verdade, mas não do tipo que assusta com jumpscares. É do tipo que fica.