Para aqueles que olham o Japão atual sem algum entendimento histórico, há o risco de achar que a sociedade nipônica sempre foi um oásis de civilidade. Mas os poucos que estudaram o passado da terra do sol nascente sabem que a tranquilidade atual foi conquistada em cima de muito sangue. Por séculos o Japão passou por momentos alternados de paz e guerra, e ao escolher o século doze como pano de fundo, Akira Kurosawa cria uma metáfora perfeita para a decadência moral e a relativização da verdade, tema central do filme.
Com o fim do Período Heian, o Japão deixa de ser um poder imperial, o território é dividido entre clãs, e a população sofre com a crescente violência. Nesse contexto, Rashomon conta a história de um crime: ao atravessar a floresta a cavalo com sua esposa, um samurai é abordado por um bandido, que inicialmente o convence de que não faria mal, porém algo grave acontece. A esposa é abusada e o samurai se encontra morto. E é aqui que a genialidade de Kurosawa se mostra: cada testemunha do assassinato tem uma versão diferente dos fatos.
O espectador é a autoridade julgadora do crime
Ao todo são quatro testemunhas – a mulher, o bandido, o espírito do samurai e o lenhador. Conforme as quatro testemunhas contam sua versão da história para as autoridades, fica evidente que o crime em si não é o foco da trama, mas sim a fragilidade moral de personagens que fazem uma interpretação própria dos fatos.
Durante o relato, as testemunhas falam para um policial que nunca aparece: eles olham na direção do espectador, rompendo a quarta parede. A cinematografia de Kurosawa coloca a audiência como partícipe, e os réus estão ali para convencê-la. Quem assiste é a autoridade julgadora.

A metáfora da Segunda Guerra Mundial
A escolha do século XII como pano de fundo histórico e o portal de Kioto como cenário são a chave para a metáfora com o Japão pós-guerra. O portal de Kioto, um marco da era Heian por quatro séculos, no século XII jazia em ruínas, sendo um refúgio para bandidos e local de descarte de corpos. O império japonês não existia mais, em seu lugar surgem os conflitos políticos e violentos entre os clãs. Assim como no passado, o Japão do pós-guerra de Akira Kurosawa encontra-se na miséria e na descrença.
Mas no fim, como podemos perceber pelos personagens do lenhador e do sacerdote, ainda há saída para a tragédia humana. Mesmo que o contexto social seja ruim, e que as pessoas mintam para se preservar num momento de crise, ao encontrar um bebê abandonado nas ruínas do portal, o lenhador e o sacerdote se apegam ao sentimento de esperança. Kurosawa não estava errado, e as próximas décadas provariam o renascimento da sociedade japonesa moderna.
Vencedor do Leão de Ouro de Melhor Filme no Festival de Veneza de 1951 e responsável pela inclusão da categoria de melhor filme estrangeiro na premiação do Oscar, Rashomon estabeleceu Akira Kurosawa como um dos maiores diretores do século vinte.


