O ano de 1962 não se diferencia muito dos outros da mesma década no que tange à produção de grandes clássicos do cinema. As salas de exibição receberam naquele período clássicos atemporais como Lawrence da Arábia e 007 contra o Satânico Dr. No, sendo este último o longa inaugural da saga 007, viva até a atualidade. Foi também naquele ano que Roberto Faria deu ao Brasil o incrível (e infelizmente esquecido) Assalto ao Trem Pagador.
Quinto longa-metragem do diretor, Assalto ao Trem Pagador foi a maior obra de Roberto Faria até então. No lado oposto de Lawrence da Arábia e 007, que não apenas já usavam cores, mas que possuíam um orçamento generoso que dava liberdade de uso de novas técnicas, Assalto ao Trem Pagador ainda mantinha a estética de filmes policiais e de faroeste, tão comuns na Hollywood da década anterior. Porém, mesmo que seja um filme tecnicamente modesto, a força de Assalto ao Trem Pagador está no elenco de peso que deu vida a Tião Medonho, o anti-herói nacional.

Com forte inspiração em um dos crimes mais famosos da história brasileira, o filme recria com certa liberdade o ocorrido no dia 14 de junho de 1960, em Japeri, Rio de Janeiro. Foi nessa data que uma quadrilha de seis homens liderada por Tião explodiu os trilhos para parar e assaltar o trem-pagador, locomotiva usada exclusivamente para transportar dezenas de milhares de cruzeiros. O assalto foi tão bem executado que à época a polícia da Guanabara estava certa de que eram criminosos internacionais.
Mas além de apenas tentar retratar um fato histórico, o diretor Roberto Faria usa a história para mostrar o contraste dos morros cariocas com a alta sociedade à beira-mar. Não é difícil de perceber certo romantismo na construção dos personagens Tião, Edgar, Cachaça, Grilo e Tonho, que no mundo concreto eram sujeitos perigosos, mas que nas mãos de Faria transformam-se em anti-heróis relativamente complexos.
A Moralidade Distorcida do Indivíduo e o Racismo da Sociedade

Essa complexidade dada aos personagens cria no roteiro fatos interessantes, quase todos relacionados com a forma como cada personagem lida com a fortuna recém-adquirida. Cachaça, como o próprio nome já indica, usa seu dinheiro para se afundar ainda mais no álcool. Edgar compra um carro, mas tem que lidar com a esposa temerosa do perigo que é ter muito dinheiro na favela. Tonho, talvez o mais simplório de todos, compra um caminhão para fazer carreto. Grilo, racista camuflado e cérebro da operação de assalto, não hesita em tentar entrar para a alta sociedade carioca. Por fim Tião, sem dúvidas o personagem central do longa, ganha tons de anti-herói maior, com sua índole ambígua, capaz de violência desmedida ao mesmo tempo que usa da sua fortuna para ajudar a comunidade do morro.
“Quando morre uma criança na favela, todo mundo devia de cantar. É menos um pra se criar nessa miséria.” Fala de Cachaça, interpretado por Grande Otelo.
O elenco multirracial composto por Eliezer Gomes, Reginaldo Faria, Grande Otelo, Átila Iório, Jorge Dória, Ruth de Souza e Dirce Migliaccio, leva o público, num primeiro momento, a pensar que o filme exalta a democracia racial. A segunda grande mensagem de Assalto ao Trem Pagador é a do racismo enraizado na cultura nacional. Grilo, o responsável pelo planejamento do crime, deixa uma ordem para todos assim que o assalto é finalizado: não gastem mais que dez por cento do valor recebido. Porém, como mencionado antes, Grilo tenta a todo custo ser parte dos ricos da capital. Ao ser questionado por que só ele poderia ascender socialmente, ele responde:
“Eu tenho cara de ter carro, tenho olho azul.”
Apesar da mensagem ser importante, principalmente para o contexto das mudanças sociais da década de 1960, ao criar a rivalidade entre a negritude de Tião com a branquitude de Grilo, o filme sem querer diminui a gravidade da pauta racial presente no crime real, ocorrido no ano de 1960. Não que racistas grotescos como Grilo não existam, infelizmente eles estão entre nós, mas o crime factual traz uma discussão mais profunda dessas relações raciais. No mundo concreto, Tião Medonho pagou por seus crimes na prisão, mas os comparsas brancos nunca passaram um dia na cadeia. Há a possibilidade de que Tião nunca tenha sofrido injúria racial de seus companheiros, mas a sociedade carioca determinou, puramente pela cor da pele, quem deveria pagar pelos crimes, e quem deveria sair impune.


